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Renata Ferreira-Sgobbi1,3, Roberta Monteiro Incrocci1,3, Rayanne Poletti Guimarães1,3, Tamiris Prizon2,3

1Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo.

2Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo.

3Liga Acadêmica de Neurociência e Comportamento de Ribeirão Preto, São Paulo.

Edição Vol. 8, N. 12, 20 de dezembro de 2021

Dezembro, mês do espírito natalino, inicia-se carregado de simbolismos e para muitas pessoas significa união da família, atos solidários, casas enfeitadas, comida farta elementos essenciais para preparar o Natal. O espírito natalino é um acontecimento difundido há séculos e descrito com a presença de sentimentos como alegria e nostalgia. No geral, devido a essa atmosfera fraternal, somos encorajados a ser alegres, caridosos e generosos, comportamentos que vão contra nossas respostas ao estresse causadas pelos preparativos e interações gerais solicitadas nesse período do ano, causando momentos exaustivos e difíceis emocionalmente, sobretudo com a pandemia. Porém, onde encontramos esse espírito natalino no corpo humano? Quais são os mecanismos biológicos envolvidos? Por que ele depende do comportamento?

Para responder a essas perguntas, um grupo de pesquisadores da Faculdade de Saúde e Ciências Médicas da Universidade de Copenhagen, na Dinamarca, utilizou imagens de ressonância magnética funcional (fMRI) para tentar localizar o espírito natalino no cérebro humano. A fMRI é utilizada em estudos neuropsicológicos localizando centros emocionais e funcionais, dessa forma, os pesquisadores compararam um grupo de pessoas que comemoravam o Natal desde a juventude com um grupo sem tradições natalinas. Eles escanearam os grupos enquanto viam várias imagens com temas natalinos ou imagens normais e analisaram as mudanças na atividade cerebral. Dessa forma, identificaram uma rede funcional que compreende várias áreas corticais, incluindo os lóbulos parietais, o córtex pré-motor e o córtex somatossensorial em pessoas que veem as imagens de Natal (2).

Segundo os pesquisadores, os lóbulos parietais esquerdo e direito, em estudos anteriores de fMRI, foram associados à autotranscendência, um traço de personalidade que demonstra predisposição para a espiritualidade. Além disso, o córtex pré-motor frontal é importante para experimentar emoções compartilhadas com outros indivíduos e há evidências de que o córtex somatossensorial desempenhe um papel importante no reconhecimento da emoção facial.

Apesar destes resultados, eles devem ser interpretados com cautela e, de acordo com os pesquisadores, o estudo possui algumas limitações. Por exemplo, o desenho do estudo não distingue se a ativação observada é específica do Natal ou o resultado de qualquer combinação de emoções alegres, festivas ou nostálgicas em geral. São necessárias mais pesquisas sobre este tópico para identificar os fatores que afetam a resposta de alguém ao Natal. Concluem que algo tão mágico e complexo como o espírito natalino não pode ser totalmente explicado ou limitado, por uma atividade cerebral mapeada. No entanto, este estudo pode ser um primeiro passo importante na neurociência transcultural e nas associações que os humanos têm com suas tradições festivas.

De qualquer forma, podemos dizer que nossos sentimentos relacionados a este período podem ser influenciados por lembranças da infância ou por acontecimentos marcantes. Para a maioria das pessoas, o Natal é um acontecimento mágico e especial do ano, porém não é uma época de alegria para todos.

O período entre o Natal e o Ano Novo costuma ser uma fonte de estresse para muitos, não somente por questões emocionais, mas também pelo consumo excessivo de alimentos e drogas de abuso. Na Espanha, foi realizado um estudo com 444 participantes presentes em 13 restaurantes em Valência e Alicante, os autores relataram a utilização de álcool e outras substâncias durante a confraternização de Natal. Curiosamente, ao contrário do uso indevido do álcool, os autores observaram que a cocaína era a substância ilegal mais utilizada nestes eventos. Além disso, outros dois estudos fizeram o levantamento de intoxicações fatais de álcool durante o feriado natalino, e encontraram que na Finlândia em um período de 6 anos houve mais de 6 mil mortes com um pico significativo no período das festividades de Natal (4).

Com as expectativas de trocas de presentes, decorações natalinas, comidas e encontros familiares não é incomum também os sentimentos de frustração, tristeza e decepção decorrentes deste período. Alguns fatores podem contribuir para o aparecimento destas emoções negativas, tais como, briga familiar, perda de alguém importante, dificuldades financeiras e “Holiday blues.

O “Holiday blues é um transtorno de humor temporário de depressão ou ansiedade que ocorre durante o período entre o Natal e o Ano Novo. É mais comum em países que este período coincide com o inverno, por conta da redução de luz solar e as alterações hormonais que podem estar associadas ao desenvolvimento do transtorno depressivo. Este fenômeno tende a passar depois que as confraternizações acabam, e alerta-se para a importância de avaliar se, de fato, os comportamentos depressivos estão relacionados à depressão sazonal ou ao feriado (1).

Apesar dos problemas, necessidade de fechar projetos e as frustrações existentes em cada um destes processos enfrentados durante as reuniões natalinas, para muitos de nós, o Natal é uma época de encanto, de inocência, acolhimento e entusiasmo. Se temos lembranças felizes da infância nesse feriado, provavelmente vamos recriar esse sentimento e aproveitar este momento. Porém, se o feriado nos traz lembranças ruins vivenciadas durante a infância, podemos ser a pessoa que odeia quando as decorações natalinas começam a aparecer.

No entanto, neste último caso, podemos tentar reverter essa situação através de novas associações no período de festividades, ou seja, criando uma nova tradição e novos hábitos que tragam felicidade. possibilitando uma ressignificação do espírito natalino, construindo memórias mais novas e felizes (3).

Referências

1.Brownawell A, Bossolo L (2009). Holiday Blues That Linger Could Be Warning Sign of Depression. [publicação online]; 2009 [acesso em 05 dez 2021]. Disponível em https://www.apa.org/news/press/releases/2009/12/holiday-blues

2.Hougaard A, Lindberg U, Arngrim N, Larsson HBW, Olesen J, Amin FM, Ashina M, Haddock BT. (2015). Evidence of a Christmas spirit network in the brain: functional MRI study. BMJ, 351:h6266.

3.Murray R (2021). Go ahead, put up the Christmas lights now! Science says it will make you happier. [publicação online]; 2021 [acesso em 09 dez 2021]. Disponível em https://www.today.com/health/decorating-christmas-early-makes-you-happier-science-says-t119186

4.Sansone RA, Sansone LA. (2011). The christmas effect on psychopathology. Innovations in Clinical Neuroscience, 8(12), 10-13.

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