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Rafael Kenjy Itinoche1, Théo Henrique de Lima Vasconcellos2, Alexandre Hiroaki Kihara2

1 Cypress Bay High School, Weston, FL, Estados Unidos

2 Laboratório de Neurogenética, Universidade Federal do ABC, São Bernardo do Campo, SP, Brasil

Edição Vol. 6, N. 12, 26 de Novembro de 2019

DOI: http://dx.doi.org/10.15729/nanocellnews.2019.11.26.001

 

Em 2003, o farmacêutico chinês Hon Lik desenvolveu a primeira alternativa eletrônica aos cigarros tradicionais1. Os aparelhos apresentam variedade de formas e tamanhos, mas todos dividem o mesmo conceito: um atomizador na extremidade do aparelho transforma uma solução com nicotina em vapor, que é inalado através de um bocal. Nos últimos anos, o uso de cigarros eletrônicos (CE) por adolescentes e jovens adultos disparou. Os CEs, com seus sabores atraentes, baixos custos, ampla disponibilidade e designs modernos e discretos, geram discussões acerca do impacto na saúde pública. 

Inicialmente a popularidade dos CEs cresceu lentamente, já que poucos fumantes convencionais mudaram seus hábitos. Porém, em pouco tempo, a popularidade dos CEs foi expandida devido à reputação de que se tratava de uma alternativa “saudável” ao fumo. À medida que o mercado foi se expandindo, aromas e sabores foram adicionados à solução de nicotina, com o intuito de atrair e satisfazer os usuários, particularmente adolescentes e jovens adultos. O Fórum das Sociedades Respiratórias Internacionais revelou que o uso de CEs é um problema de saúde pública porque estimula o ato de fumar e pode ser realizado em espaços públicos, que em combinação com o crescimento alarmante de popularidade, pode elevar a aprovação social do fumo e do vício à nicotina2.

A nicotina é uma substância estimulante do sistema nervoso e que provoca dependência química. Seus efeitos interferem no organismo e no comportamento de fumantes. Assim, o fumante se torna dependente da substância e, por potencializar os efeitos da fumaça do cigarro, os riscos de infarto, derrame, doenças pulmonares e câncer aumentam. Ainda, fumantes costumam aumentar gradativamente o consumo de cigarros porque se tornam tolerantes à nicotina e desejam sentir os efeitos com a mesma intensidade. Por isso, a redução do número de cigarros ou a parada abrupta pode incluir a síndrome de abstinência de nicotina (Fig. 1). Os sintomas podem incluir insônia, perturbações físicas e psicológicas, humor deprimido, irritabilidade, ansiedade, agitação, dificuldade de concentração, prisão de ventre, diminuição da frequência cardíaca, aumento do apetite, ganho de peso, entre outros.

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Figura. 1 – Representação da resistência à nicotina causa pelo ato de fumo frequente. Da esquerda para a direita são representados fumantes em diferentes tempos de exposição à nicotina. Para que se sintam satisfeitos com o fumo, necessitam de mais nicotina em sua corrente sanguínea, pois o aumento da exposição causa adaptação e dessensibilização do organismo à substância e efeito reduzido da mesma. 

Além dos prejudiciais efeitos da nicotina, outra principal preocupação sobre o uso do CEs é o potencial de emissão de aldeídos tóxicos, como o formaldeído, acetaldeído, propanal e acroleína, conhecidos por serem formados após o aquecimento de propilenoglicol e glicerol, utilizados como solventes3,4. Outros possíveis contaminantes inalados são benzaldeídos, nitrosaminas cancerígenas, compostos terpênicos como o limoneno (provavelmente utilizados pelos fabricantes como agentes aromatizantes)5,6,7, e partículas de metais pesados ​​e silicatos (> 1 μm) incluindo nanopartículas (<100 nm)8

Estudos recentes revelaram que a fumaça de CEs prejudica os pulmões. Nestes estudos foi demonstrado que a exposição à fumaça/aerosol induz estresse oxidativo, depleção de glutationa e o aumento da produção de citocinas inflamatórias em células epiteliais das vias aéreas humanas in vitro e em pulmões de ratos9. Ainda, ratos expostos à fumaça de CEs revelam defesas antibacterianas e antivirais pulmonares prejudicadas em resposta à infecção por S. pneumoniae e vírus Influenza A, respectivamente10. Essas alterações podem desempenhar um papel no desenvolvimento de doenças crônicas de vias aéreas, por exemplo, a doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC). Também foram relatados danos ao DNA, bem como aos seus mecanismos de reparo em células epiteliais brônquicas humanas e no pulmão de ratos, sugerindo maior suscetibilidade do epitélio pulmonar à transformação oncogênica e à tumorigênese11. Décadas de tabagismo crônico são necessários para o desenvolvimento de doenças pulmonares como o câncer de pulmão ou DPOC, portanto os efeitos do uso de CEs na população podem não ser evidentes até a metade deste século12 (Fig.2).

Uma pesquisa examinou a associação entre o uso de CEs e estados de saúde mental adversos que incluem depressão, transtorno de humor e ansiedade, pensamentos e tentativas de suicídio e desejo de consumir bebidas alcoólicas.  Os dados utilizados foram coletados em um levantamento realizado na comunidade canadense. Foi concluído que a associação entre o uso de CEs e tais estados de saúde mental adversos foi maior em não-fumantes e mulheres. O maior dano do uso de CEs entre a população geral não-fumante possui importantes implicações na saúde pública na questão de regulamentação e publicidade do produto. A descoberta de que a associação é maior em mulheres do que em homens também chama atenção, já que o grupo pode ser afetado desproporcionalmente por CEs. A consideração de CEs como um fator de risco para a saúde mental e os potenciais danos do vapor devem ser esclarecidos com futuros estudos longitudinais13.

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Figura. 2 – Representação da entrega de nicotina pelo tabagismo. Trabalhos indicaram diferenças significativas na concentração de nicotina na corrente sanguínea, onde o uso do cigarro tradicional resultou em valor mais elevado se comparado ao cigarro eletrônico (CE). Este dado leva à hipótese de que para um fumante tradicional que fez transição para CE seria necessário maior tempo fumando para obter a mesma quantidade de nicotina. Uma consequência desta hipótese seria uma maior exposição aos diferentes produtos resultantes da combustão do conteúdo nos CEs.

Os Estados Unidos está atualmente se deparando com um surto de doenças pulmonares associadas ao uso de CEs em diversos estados, de acordo com o Centro de Controle e Prevenção de Doenças. Segundo relatos recentes, esses pacientes apresentam sintomas como febre, tosse, vômito, diarreia, dor de cabeça, tontura, dor no peito e falta de ar. 

Em 24 de agosto de 2019 a BBC divulgou a primeira morte relacionada ao uso de CEs, que ocorreu no estado de Illinois. A morte ocorreu após o paciente desenvolver uma doença respiratória severa. A médica chefe e epidemiologista do estado de Illinois menciona que o paciente foi hospitalizado com uma doença não diagnosticada após relatar uso de CEs14. O número de casos de danos aos pulmões relacionados ao uso de CEs cresceu para 805 e o de mortes para 12 nos Estados Unidos até outubro de 2019, onde o uso de cigarros eletrônicos está sendo encarado como um problema de saúde pública15.

No Brasil, pela Resolução da Diretoria Colegiada (RDC) 46 da Anvisa, a comercialização, a importação e a propaganda de todos os dispositivos eletrônicos para fumar estão proibidas desde 2009. Mesmo ilegal, o consumo de CEs vem crescendo no Brasil. Vários tipos de CEs podem ser comprados pela internet e são encontrados no comércio de grandes centros urbanos. Entre outros argumentos, setores da indústria ligados aos CEs alegam que a liberação regulada no país acabaria com a venda ilegal do produto e coibiria o seu uso indevido. Enquanto os riscos do uso de cigarros convencionais já são sabidos, os CEs ainda apresentam uma série de questões não completamente esclarecidas. De forma geral, a maior parte das pesquisas na área parece indicar que além do elevado risco pelo uso subsequente de cigarros tradicionais, os CEs expõem jovens a vários riscos de saúde agudos e à longo prazo que superam os potenciais benefícios do uso, como a redução de tabagismo. 

REFERÊNCIAS

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  14. https://www.bbc.com/news/world-us-canada-49452256
  15. https://www.usatoday.com/story/news/nation/2019/09/26/cdc-reports-805-vaping-lung-disease-cases/3772757002/

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